O ANALFABAITISMO NO JAPÃO E O FUTURO DAS PROFISSÕES.

Por Marcos Alencar 24/04/20 marcos@dejure.com.br

Um dos meus gurus é o Cientista paraibano Sílvio Meira (link) . Já tive a oportunidade de debater com ele algumas vezes sobre “desemprego tecnologico” e “o futuro das profissões” (link). Sílvio é para mim uma referência mundial, não apenas um cientista e sim um visionário. Em todos os debates, sempre me posicionei (divergindo um pouco dele) que o principal entrave ao desenvolvimento tecnológico e o fim de muitas profissões, decorre do analfabaitismo (leigo tecnológico).

Na minha interpretação destes dois problemas, o desemprego tecnológico e o futuro das profissões, eu considero o analfabaitismo como um coringa que muitos não admitem existir. Hoje cedo, assisti no jornal da Rede Globo, H1 uma matéria intitulada: “Japão demora a implantar a quarentena e trabalho remoto durante a pandemia.”

Na reportagem que dura 3 minutos, constatei que:

(a) que a população do Japão tem uma idade avançada e que está desconectada com os novos tempos. As pessoas não dominam a tecnologia que dispõem. Há situações, por exemplo, que os japoneses exigem assinaturas e carimbo num papel e desprezam os aplicativos. Eu achei isso inacreditável;

(b) que 72% das empresas nesta pandemia, tiveram que adotar no home office, mas que a digitalização e a falta de modernização administrativa das empresas, criou muitos entraves. As empresas japonesas são de ponta, apenas quando o assunto é vendas e comércio eletrônico, mas, ultrapassadas, quanto as outras áreas, de gestão e administrativas. Isso também me deixou pasmo;

(c) que os japoneses fazem questão de ir ao trabalho, fisicamente, mas que isso se explica porque as redes domésticas não são seguras, são lentas, e (de minha parte) as casas são pequenas;

Uma grande curiosidade da reportagem, é que o Ministro da cibersegurança do Japão, Yoshitaka Sakurada, confessou que nunca usou um computador (!) (link da matéria). Este Ministro possui quase 70 anos (e 1/4 da população do Japão possui mais de 65 anos e ocupa cargos de liderança, porque o japonês é um povo longevo). Essa constatação, que eu considero como um fenômeno, é um grande empecilho do avanço rápido dessa disrupção que podemos resumir nestes dois pontos, desemprego tecnológico e o incerto futuro das profissões. O que segura estas mudanças é a falta de conhecimento geral, de quem manda ainda nas coisas, quando o tema envolve computadores e sistemas de ponta.

Eu nomino esse fenômeno como “analfabaitismo” que significa a ignorância e leiguice, o desconhecimento, de noções básicas para lidar com a tecnologia. Quanto mais a tecnologia avança, para estas pessoas analfabaites, mais difícil fica. Como grande parte delas estão no comando, as coisas passam a “rodar” no mundo analógico e não no digital. Existe a disponibilidade dos recursos digitais, mas por falta de conhecimento, gestor vai no tradicional que ele domina e “engaveta” o digital. Estas pessoas freiam de certa forma a modernização e desenvolvimento tecnológico na sociedade.

Antigamente, no começo da revolução digital, como os equipamentos e programas eram mais simples, os desenvolvedores conseguiam fazer uma integração maior dos analfabaites com os novos equipamentos. Isso se denominava de plataforma “friendly” que quer dizer amigável. Era como se a novidade dissesse para o analfabaite, não fuja! venha para cá que garanto que será fácil a sua experiência com o novo. O melhor exemplo disso, é o aplicativo whatsapp. Por ele ser fácil, amigável, tornou-se um sucesso social. Porém, isso está cada vez mais difícil de ser alcançado.

Eu vejo toda esta confusão similar a do empregado que recebe uma sentença do Juiz, lê dez vezes e não sabe se ganhou ou se perdeu o processo. As palavras técnicas e o juridiquês impedem a compreensão do leigo no direito, é como se ele visse sem enxergar, nada adianta porque não se consegue atingir uma mínima compreensão do que ali está escrito.

Dentro desse contexto, eu não vejo uma IMEDIATA ruptura do mundo analógico para o mundo digital, porque estas pessoas – que nada dominam quanto a linguagem dos computadores, aplicativos e softwares – terminam travando significativamente este avanço . Para exemplificar com mais um comparativo, é o ato de muitos que ao telefonar para central do cartão de crédito, objetivando reclamar algo optam apertar o 9 e desprezam o atendimento digital do robô, porque querem ser atendidos por uma voz humana. Certamente que os filhos das pessoas que estão nascendo agora, não terão nem esta opção, mas enquanto isso não chega, teremos muitos obstáculos pelo caminho.

A pandemia fez cair as máscaras.

Os Estados Unidos revelou-se como um país subdesenvolvido na questão da saúde pública. A minha impressão é que o nosso tão malhado SUS é bem melhor do que o sistema americano. No Japão, a máscara tecnológica vem caindo ao longo dos anos e agora por completo, pois, para dar mais um exemplo, é inadmissível que se tenha um Ministro (mesmo ocupando cargo político) relacionado a cibersegurança e ele nunca tenha trabalhado um só minuto num computador.

Não estou aqui a desmerecer a pujança tecnológica do Japão, não é isso! Estou a questionar que a “leiguice tecnológica” só pode ser combatida com horas de estudo. Não adianta ter máquinas desenvolvidas, robôs, hardwares, softwares, inteligência artificial, etc., se não houver as pessoas que conheçam profundamente como se comunicar com todas estas novidades e inventos – detalhe – ao ponto de interpretar nos meses seguintes as suas versões e mutações.

O tradicional método de abrir um livro e estudar continua sendo decisivo e a falta de conhecimento é uma barreira que precisa de muito investimento de tempo e de dinheiro para se transpor. As pessoas denominadas como imigrantes digitais (link) são as que nasceram até 1980 e muitos destes estão nas salas de aula ministrando cursos, sem a capacidade e conhecimento de ensinar – sequer – uma atitude e comportamento digital.

Quem quer crescer no mundo digital, precisa estudar sozinho e quebrar a cabeça no deciframento dos equipamentos tecnológicos. Não estou aqui a desprezar os jovens que optam por profissões e desejam estudar carreiras tecnológicas e que possuem opções como o CESAR (link)., mas para deixar evidenciado que quem veio do mundo analógico, da agenda de papel, precisa reaprender tudo.

Dentro dessa grande confusão, temos agora um mundo sem dinheiro para novos investimentos em tecnologias, porque os recursos estão focados na saúde e no sustento dos desempregados. A pandemia deu uma contra ordem no desenvolvimento tecnológico, porque tecnologia custa caro, a prova disso é que os preços dos celulares e computadores não baixam, na minha visão eles se mantém ou crescem assustadoramente. Da mesma forma, é o custo do desenvolvimento de novos gadgets (se você não sabe o que isso significa, és um leigo digital! (risos).

Para terminar, eu sugiro sempre um simples teste para que você leitor meça o seu nível de habilidade tecnológica. Tente trocar o tipo da fonte (letras) do seu celular, cor da tela, temas, usando o acesso intuitivo das configurações. Se você não consegue exercer sozinho e com desenvoltura esse simples acesso, considere-se um analfabaite e com isso um leigo digital.

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