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O trabalho em condições análogas a escravidão e as prisões no Brasil.

Escrito por Marcos Alencar | Agosto 17, 2014

Dia_da_Abolicao_-_BRASIL_ESCOLAO trabalho escravo e o aprisionamento como condição essencial para sua caracterização.

Por Marcos Alencar (17.08.14)

O tema deste post, com subtítulo, “O trabalho em condições análogas a escravidão e as prisões no Brasil”, tem como objetivo gerar mais um alerta em prol da solução dos dois polos que remetem a este título. Por razões óbvias, não defendo os que promovem o emprego nestas condições e sou totalmente contra que se mantenha um empregado trabalhando em condição análoga a escravidão. Também não concordo com a violação ao art. 5º, II, da CF de 1988, no quesito da punição dos infratores, com a pena de prisão. O tema é gravíssimo e precisa de uma definição técnica e apolítica, sem a pecha ideológica que muitos lhe impõem.

Sinceramente, percebo que muitos querem resolver este problema e ao mesmo tempo, aproveitar “o gancho”, para fazer reforma agrária em propriedade produtiva e privada, sem nenhum amparo legal. No Brasil de 2014, abusivamente, muitas condenações estão sendo proferidas sem fundamento legal (viola-se o art. 93, IX da CF de 1988), as justificativas que se apresentam se fundam numa relativa moral e ética, possuem um viés ideológico e assistencialista, “robinhoodiano” – tomar dos supostos ricos para dar aos supostos pobres. A luta pela erradicação do trabalho escravo iniciou-se há quase 120 anos no País e em 2011, reputo como um marco do ressurgimento desse movimento, mas dessa vez com uma ampliação (que considero INCONSEQUENTE) do conceito do “trabalho em condição análoga a escravidão”. Em 2011, o Ministério do Trabalho e do Emprego, lança a Cartilha de Combate ao Trabalho Escravo.

Considero este documento como algo que suplanta os limites da razão, por ele ter sido editado e replicado por diversos órgãos oficiais, tratando de um tema importantíssimo – mas com um rótulo político ideológico. A Cartilha não foi editada por um grupo de estudo, mas sim por pessoas que pensam de uma mesma forma e que consideram – equivocadamente – qualquer infração trabalhista mais gravosa, como trabalho em condição análoga a escravidão. O conceito e esta triste condição, passam a ser banalizadas. Em 05.06.2014, noticia à mídia que o Congresso Nacional promulga Emenda em que determina à expropriação de terras em que for encontrada a exploração do trabalho em condição análoga a escravidão. Apesar disso, a Emenda precisa ser regulamentada para que se defina o que é trabalho em condição análoga a escravidão.

No Brasil o Poder Judiciário reina soberano e vem legislando ao seu “bel-prazer”, sem que o Parlamento reivindique a sua competência única de editar as leis do País. Hoje me deparei com notícia (17.08.14) do Portal G1 que conta a respeito da prisão do Reitor de Universidade de Uberaba, porque nas suas terras foram encontrados trabalhadores alojados em Casas precárias, sem água potável, tendo que andar 10 quilômetros para frente de trabalho. Paira ainda a acusação de falsidade ideológica na criação de empresas em nome de trabalhadores para que alguns como empregados destas laborassem de forma autônoma para o mesmo. As acusações são gravíssimas, porém, não vejo legalidade para condenação em multa de 8,2 milhões de reais e pena de 9 (nove) anos de prisão em regime fechado. Entendo que as irregularidades merecem ser tratadas com o rigor da lei, pois evidente a desproporcionalidade da pena pecuniária e de liberdade imposta. Não existe lei no País que permita isso. O julgamento, mesmo sem conhecer o processo, padece de fundamento porque não temos Lei disciplinando totalmente a matéria.

Este tema necessita urgentemente ser regulado, de forma detalhada, salientando que qualquer penalidade não pode ser interpretada de forma ampla, mas sempre restrita, assim como todas as cláusulas penais. A analogia que se aplica aos casos de trabalho em condições precárias acontece em sentido amplo, o que é uma ofensa a todo o arcabouço jurídico. A interpretação não pode ser ampliativa, mas sim restritiva. Na minha modesta compreensão, outras penas devem ser previstas e aplicadas contra o mau empregador, que trata seus empregados dentro da ilegalidade, porém, trabalho em condição análoga a escravidão tem que ser composta de aprisionamento. Ora, sem o aprisionamento, seja ele qual for, poderá o trabalhador fazer denúncia e se libertar do mau trabalho, não se constituindo assim em condição análoga a escravidão.

Na medida em que trato da questão do “aprisionamento” como essencial a caracterização do trabalho em condição análoga a escravidão, estou me referindo também aos passaportes e demais documentos presos, dos estrangeiros, ou ao trabalho em localidades que o trabalhador fique sem condições de clamar por socorro e de sair de tal situação. Ao contrário disso, nas situações que não houver o cumprimento desse quesito de “estar preso” não se pode considerar que tal trabalho é análogo a escravidão. Não podemos permitir que os ideólogos de plantão, que estão infiltrados em vários órgãos da organização judiciária, executiva e parlamentar brasileira, tenham voz nesse discurso político e que visa tramar a tão sonhada reforma agrária sem pagamento de nenhum tostão.